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A arte de incluir

01/11/2018

Arte, empreendedorismo e inclusão produtiva. Esses três fatores se reúnem no trabalho desenvolvido há mais de 20 anos pela artista Eli Tosta e seu Ateliê Brasil. Tudo começou a partir do desejo de imergir na diversidade cultural do país. “Eu fiz minhas escolas na Europa e, quando voltei para o Brasil, queria trabalhar com segmentos naturais. Comecei a pesquisar, andar pelo país, conhecer os biomas brasileiros…”, conta a artista, que desenvolve um sério trabalho de valorização da produção artesanal de comunidades locais por meio da arte.

Empreender não estava nos planos de Eli no início de sua trajetória, mas tornou-se o meio encontrado para aumentar impacto social positivo de sua atividade como artista. “Comecei a ver que os ribeirinhos faziam coisas fantásticas. E, como artista, comecei a comprar produtos deles, fazer uma releitura daquele material e colocar na minha obra de arte. Participei de exposições internacionais, ganhei prêmios muito cedo e achei que o que eu pagava para a comunidade era pouco, perto do que eu estava recebendo. Então comecei a andar nas comunidades e conversar com os produtores: ‘Olha, se eu quisesse comprar mais isso, como a gente poderia fazer?’. Nessa trajetória de laboratório solo que eu fiz, quem financiava isso era a minha obra”, relembra.

Referência pela qualidade de seu trabalho e pela característica de inclusão social a partir do respeito das tradições locais, Eli, em pouco tempo, conquistou espaço na Europa e também no Brasil, onde institutos e grandes empresas – como Petrobrás e Natura – se tornaram seus clientes. A visibilidade deu à artista a oportunidade que buscava de combater a pobreza a partir de suas causas estruturais. No ramo de brindes corporativos, decoração e acessórios de vestuário, o Ateliê Brasil encontrou mercado para escoar a produção de diversas comunidades tradicionais espalhadas pelo país. O trabalho do Ateliê Brasil é voltado, também, para auxiliar o processo de profissionalização dessa produção. “É nisso que eu acredito. Primeiro, não existe transformação instantânea. Segundo, você tem que lidar com o que as pessoas têm no entorno, com o que está ligado à cultura local, respeitando os valores locais, mas sempre levando em conta o quanto temos para receber como aprendizado dessas pessoas.”

A mais recente empreitada assumida por Eli Tosta, um trabalho de valorização das rendeiras do sertão pernambucano (próximo à divisa com a Paraíba), lhe rendeu premiação no evento Prophetic Economy, evento realizado em outubro, na Itália, por diversas organizações internacionais (entre as quais a Economia de Comunhão) para dar visibilidade a iniciativas que apontam para uma nova forma de fazer economia, que valoriza as relações humanas e a sustentabilidade. “As mulheres fazem a renda da renascença, uma renda que as freiras na Itália ensinavam, que uma senhora aprendeu e ensinou nesse lugar. É um negócio…”, conta Eli, sem esconder a admiração pelo trabalho das rendeiras. O capricho e a sofisticação das rendas escondem a adversidade que as artistas do agreste pernambucano precisam superar diariamente. “A água vem de caminhão pipa. Todo mundo tem que fazer seu reservatório. As pessoas, nem as que têm a casa bem mobiliada, possuem máquina de lavar, para não gastar água. Eles têm uma oração para quando abrem a torneira e sai a água: ‘Água divina que veio do céu’”, relata Eli. A região chegou a ficar sete anos sem chuva.

O próximo passo do Ateliê Brasil é a captação, via parcerias, de investimento para escoamento dos produtos no exterior. “Quero atrair investimentos de fundos para que a gente possa investir em determinadas comunidades. Se você começa com uma, duas, três comunidades, você monta uma rede, um polo produtivo num local, por exemplo, como esse no Nordeste e consegue exportar coisas maravilhosas”, vislumbra.

Escrito por Thiago Borges
Publicado na Revista Cidade Nova em novembro de 2018