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Quando o impacto é realmente coletivo?

27/03/2019

Uma conhecida fábula da cultura popular brasileira conta a história de um pássaro que, ao ver um grande incêndio na floresta, vai até à margem do rio, pega em seu bico algumas gotas de água, voa até o fogo e deixa-as cair sobre as labaredas, enquanto os demais animais fogem em debandada para salvar suas vidas. Questionado por um dos animais se conseguiria apagar o incêndio sozinho, o pássaro responde: “eu não sei se conseguirei, mas estou certo de estar fazendo a minha parte”. Neste exemplo fictício, a iniciativa do pássaro é de fato necessária, e o seu protagonismo é admirável…porém o impacto de sua ação é isolado e produz resultados ineficazes em relação ao problema que pretende combater. Em outras palavras, a sua iniciativa individual é importante, mas insuficiente.

Transpondo esse exemplo para a realidade, sabemos que há décadas vem crescendo em todo o mundo o número de movimentos, associações, organizações não-governamentais, empresas sociais, instituições filantrópicas, organizações religiosas, entre outros, atuando de maneira independente e nas mais diversas áreas, para encontrar soluções concretas aos problemas sociais que se propõem a combater. Da mesma forma como relatado na fábula, as pessoas que trabalham nessas organizações agem normalmente imbuídas de motivações genuínas e empenham-se arduamente para transformar a realidade que as cerca, porém em muitos casos, os resultados alcançados pouco contribuem para a real mudança que se almeja concretizar.

Pensando em encontrar uma forma de responder a essa problemática, em 2011, John Kania & Mark Kramer, dois pesquisadores e consultores norte-americanos da área de gestão, publicaram o artigo inédito intitulado Impacto Coletivo na edição de inverno da revista Stanford Social Innovation Review. Neste texto, os autores apresentam uma nova abordagem estratégica de colaboração, que surge como uma resposta para as iniciativas que geram impacto isolado e às soluções de curto prazo. O conceito do Impacto Coletivo (IC) foi definido por eles como “…o compromisso de longo prazo por um grupo importante de atores de diferentes setores em torno de uma agenda comum para resolver um problema social específico”. E para que esta coordenação seja possível de ser colocada em prática, eles explicam que é preciso que os diversos atores (que podem ser empresas, governos, ONGs, cidadãos comuns, e etc) estejam aptos a construir cinco condições-chave que guiarão sua atuação.

A primeira condição-chave é construir uma agenda comum, ou seja, todos os participantes precisam ter uma visão compartilhada para a mudança, incluindo um entendimento comum do problema e uma abordagem conjunta para resolvê-lo por meio de ações condensadas. A segunda condição-chave é estabelecer sistemas de mensuração compartilhados, o que inclui coletar dados e medir os resultados de forma consistente entre todos os participantes, pois isso garante que os esforços permaneçam alinhados e os participantes se responsabilizem uns aos outros. A terceira condição-chave é desenvolver atividades de reforço mútuo, isto é, as atividades dos participantes devem ser diferenciadas entre si, ao mesmo tempo em que estão sendo coordenadas por meio de um plano de ação que os reforce mutuamente. A quarta condição-chave é garantir uma comunicação contínua, pois se entende que a comunicação consistente e aberta é necessária entre todos os participantes para criar confiança, assegurar objetivos mútuos e gerar motivação comum. E a quinta e última condição-chave é constituir uma organização central de suporte, formada por uma equipe e com um conjunto específico de habilidades e recursos para servir de base para toda a iniciativa e coordenar as demais organizações participantes.

Impacto Coletivo e Economia de Comunhão

No século XXI, uma das questões sociais complexas na qual governos, empresas, ONGs e cidadãos comuns enfrentam diariamente é o combate à pobreza. Diversas entidades ao redor do mundo se ocupam deste tema, dentre elas, os agentes que aderem ao projeto Economia de Comunhão (EdC). Apesar da proposta da EdC não ter se inspirado na abordagem do IC, é possível encontrar similaridades entre elas, em pelo menos três aspectos.

Primeiro, existe o envolvimento e o comprometimento entre atores de diferentes setores – que na EdC envolve empresários, empresas, associações, instituições econômicas, mas também trabalhadores, gestores, consumidores, pesquisadores, necessitados, e etc – em torno de um objetivo comum, de natureza complexa, que é o combate à pobreza e às situações de vulnerabilidade socieconômica.

Segundo, orienta-se para a busca de soluções de longo prazo, pois na EdC entende-se que para combater as várias formas de pobreza, exclusão e miséria é preciso superar o paradigma assistencialista de ajuda econômica (impacto isolado) para uma nova mentalidade baseada na cultura de partilha, que suscita a reciprocidade entre os atores envolvidos (impacto coletivo).

E terceiro, a EdC ambiciona gerar impacto em larga escala, pois é formada por uma rede global presente em mais de 30 países, organizada por uma Comissão Central e por Comissões Locais e Associações nacionais ligadas àquela, através de atividades coordenadas que se reforçam mutuamente, como por exemplo:

a) criando uma rede nacional e internacional que partilha necessidades, recursos (financeiros ou não) e talentos;

b) desenvolvendo projetos de incentivo ao empreendedorismo dentro dos valores e princípios de comunhão;

c) apoiando polos industriais de negócios;

d) fornecendo apoio a pesquisas acadêmicas nas mais diversas áreas do conhecimento;

e) inserindo-se em acordos de cooperação com associações locais ou de outros países;

f) compartilhando recursos financeiros com pessoas que integram projetos de superação de situações de vulnerabilidade econômica;

g) promovendo seminários e encontros de formação que promovam a difusão e a cultura da EdC, entre tantas outras iniciativas (ANPECOM, 2019).

Desde que o Impacto Coletivo foi lançado em 2011, centenas de organizações passaram a implementar os seus princípios e condições-chave e muitos progressos foram alcançados. Na visão de seus fundadores, uma dentre as diversas contribuições trazidas pelo IC é a capacidade de lidar sob condições de complexidade e incerteza por meio da construção de soluções emergentes. Isto é, os atores envolvidos começam com uma proposta de plano, mas aprendem, por meio de um processo de tentativa e erro, quais são as ações bem sucedidas (ou não), e vão remodelando suas estratégias ao longo do caminho. E é possível notar essa peculiaridade na experiência da EdC! Ao observarmos a sua trajetória, percebemos que a Economia de Comunhão surgiu no ano de 1991 com uma ideia básica de projeto, ou seja, a divisão e a comunhão do lucro em três partes (proposta de plano), que ainda hoje inspira sua atuação, mas que no decorrer do tempo, e a partir da vivência prática das empresas, foram delineando-se e amadurecendo outros elementos e iniciativas – como por exemplo, o surgimento dos programas PROFOR, SUPERA e EdC IIN, dentre outros – e que continuam sendo aprimorados dia após dia.

Contribuições da EdC para o Impacto Coletivo

Apesar dos avanços relatados em inúmeras experiências ao redor do globo que adotaram o IC como abordagem estratégica de gestão, ao longo dos últimos anos, pesquisadores e especialistas de diversas áreas tem ganhado visibilidade e voz ao criticar a abordagem do Impacto Coletivo, por entendê-la como uma visão limitada e simplista de colaboração comunitária, omitindo a contribuição de outros modelos de colaboração pré-existentes. Além disso, em certos casos notou-se a ausência de engajamento da comunidade no processo de construção do impacto coletivo, onde muitas vezes as próprias pessoas que seriam impactadas pelos resultados das iniciativas são deixada de fora do processo. Tom Wolff, um reconhecido consultor para organizações sociais e desenvolvimento comunitário dos Estados Unidos, apresenta duras críticas ao impacto coletivo pois, na sua visão, nem sempre se estabelece como uma prioridade envolver os mais afetados pelo problema a ser combatido em seus processos, pois eles não são necessariamente consultados, ou não participam de forma significativa nas tomadas de decisão.

Na Economia de Comunhão, compartilhar os recursos gerados pelas empresas é a consequência visível da chamada “cultura da partilha” ou “cultura do dar”, que permeia sua atuação. Para Chiara Lubich, inspiradora do projeto, aqueles que se encontram em dificuldade econômica, destinatários de uma parte do lucro, não são considerados “assistidos” ou “beneficiários” da empresa. Antes, são membros essenciais e com posição e voz ativa no projeto, na qual eles doam aos outros as próprias necessidades. Portanto, na EdC a ênfase não é dada à filantropia por parte de alguns, mas antes, à partilha, na qual cada um dá e recebe com igual dignidade.

De acordo com Tom Wolff, o que as iniciativas de impacto coletivo precisam envolver são as pessoas mais e menos poderosas em uma comunidade, encontrando meios para que elas conversem e trabalhem em conjunto para abordar as prioridades de ação nas instituições e organizações que servem à própria comunidade. Por sua vez, a cultura da partilha, que permeia o modus operandi da EdC, ao quebrar a lógica tradicional de gestão que valoriza a assimetria de relações, pode ser um caminho para a superação dessas diferenças (onde geralmente líderes e membros da comunidade não estão no mesmo nível de paridade nas tomadas de decisão), transcendendo-as em direção a relações de reciprocidade e fraternidade. Neste sentido, as centenas de experiências vividas pelos agentes inseridos na cultura da EdC ao longo de seus 28 anos pode ter algo a contribuir sobre como garantir o engajamento inclusivo da comunidade e, consequentemente, como aprimorar a proposta do impacto coletivo.

REFERÊNCIAS

BRUNI, L. Comunhão e as Novas Palavras em Economia. Vargem Grande Paulista, São Paulo: Editora Cidade Nova, 2005.

KANIA, J.; KRAMER, M. Collective Impact. Stanford Social Innovation Review, v.9, n.1, p. 36-41, 2011.

WOLFF, T. Ten Places Where Collective Impact Gets It Wrong. Global Journal of Community Psychology Practice, v. 7, p. 1-11, 2016.

 

Silvia Martí Barros Carpes é Mestre em Gestão e Negócios com dupla titulação pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS) e Universitè de Poitiers (França), Especialista em Marketing Estratégico pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) com complementação em Negócios Internacionais pela Flórida International University (EUA) e Bacharel em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tendo realizado mobilidade acadêmica na Università degli Studi di Trento (Itália). É autora do livro Tensão Ética entre Racionalidades: um olhar sob a Economia de Comunhão. 

Autor: Silvia Barros